quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O duro despertar para a realidade

A Liga dos Amigos do Jamor tem como objecto a promoção e defesa do complexo do Estádio Nacional, mas não vive alheada da realidade do seu país.

Por isso, não podemos fazer de conta que não aconteceu nada e continuar, como se nada fosse, publicando hoje mais um dos nossos artigos sobre o Estádio Nacional.

Neste momento, em que muitos de nós estão a reequacionar as suas prioridades e a deitar contas à vida, a nossa palavra é de esperança e o nosso apelo é para que se saiba distinguir o essencial do acessório e que se dê a mão a quem precisa.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

As Quintas do Estádio Nacional - A Quinta de São José e o campo de golfe


Quinta de S. José, em Linda-a Pastora, 16 de Outubro de 1910


Meu caro Teófilo Braga

(...) Sabe muito bem V., conhecendo a minha orientação mental, que, indiferente às formas de governo, nada em política me é mais profundamente antipático do que o votismo e o parlamentarismo, que eu considero os mais destrutivos agentes da capacidade administrativa em democracias insuficientemente educadas para a liberdade.

(...)

Domingo passado — faz hoje oito dias — encontrando-me eu e a minha mulher nesta quinta de uma das minhas filhas (...)”.[1]

A história da construção de um campo de golfe no Jamor, bem como a história daqueles terrenos, anteriormente integrantes da Quinta de S. José, é longa e atribulada e conheceu vários avanços e recuos ao longo dos anos.


Quando o Estádio Nacional foi construído durante o Estado Novo, os terrenos inicialmente destinavam-se a um hipódromo. Aliás, o curso do Rio Jamor foi desviado para esse efeito, para permitir a criação de um espaço mais amplo nessa margem do rio. O hipódromo nunca foi construído e os terrenos não tiveram nenhuma utilização especial até 1985, ano em que foram arranjados para realizar o Campeonato do Mundo de Corta-Mato, que foi vencido por Carlos Lopes.


Nos anos seguintes, continuaram mais ou menos ao abandono, tendo inclusivamente sido utilizados para realizar o prólogo do Rally de Portugal.


Este estado de relativo abandono, que se prolongou até 2009, permitiu a recuperação ambiental, embora incipiente, de terrenos que tinham sido fortemente intervencionados em anos anteriores em virtude das grandes movimentações de terras que aí tinham sido realizadas.


Quanto ao golfe, já existia um campo de treino de golfe nesse espaço há cerca de 20 anos, mas o que está agora em causa é passar de um campo de treino, que faz todo o sentido no contexto do Complexo Desportivo Nacional do Jamor, para um campo de golfe dito “público” de 18 buracos vedado em toda a sua extensão. Esta ideia é muitíssimo questionável tendo em conta o espaço necessário para esse efeito, sem qualquer paralelo com o espaço afecto às outras modalidades, bem como as implicações ambientais.


Durante anos, o projecto do campo de golfe não avançou, por muitos e variados motivos, entre os quais se encontravam problemas ligados ao financiamento da obra e questões ligadas ao ambiente (uma grande parte dos terrenos integra a REN e é domínio público hídrico, para além de ser leito de cheias).


Foi o nosso anterior governo que veio resolver o impasse, através duma parceria entre o IDP, tutelado pelo Secretário de Estado da Juventude e dos Desportos, Laurentino Dias, e, em última análise, pelo Ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, e o Instituto de Turismo de Portugal, na época tutelado pelo antigo Ministro da Economia, Manuel Pinho.


Resolvido o problema do dinheiro, a opção política foi ignorar os problemas ambientais (e legais), bem como a necessidade de licenciamento. As obras da 1ª fase começaram na Primavera de 2009, sem aviso prévio, sem licenciamento algum e sem um único cartaz a dizer o que se iria construir.


Naturalmente, a população não aceitou de bom grado esta situação e recorreu aos tribunais a pedir o embargo da obra. O tribunal deferiu parte do pedido a título provisório, a saber, proibição de destruição de mais coberto vegetal e do corte de mais árvores. Esta proibição tem sido desrespeitada pelos promotores de forma clara e ostensiva. A decisão definitiva sobre esta providência cautelar ainda não foi emitida.




[1] Carta de Ramalho Ortigão a Teófilo Braga.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

As Quintas do Estádio Nacional - A Quinta do Rodízio e o ténis no Jamor


O Court Central e os edifícios associados foram construídos no local da antiga Quinta do Rodízio, onde havia um chalet de veraneio em que morou Almeida Garrett na década de 40 do século XIX. Em 1870, era propriedade do famoso político legitimista e jurisconsulto Carlos Zeferino Pinto Coelho.


Nessa zona, havia uma antiga ponte sobre o Jamor, que fazia o acesso a Linda-a-Pastora, da mesma época da que ainda hoje existe perto da foz.


Com a construção do Estádio Nacional nos anos 40, desapareceram virtualmente todos os vestígios do passado agrícola desses terrenos, embora ainda sobrem pequenos testemunhos na zona do casario junto aos courts superiores: muros de sustentação de terras em pedra aparelhada, regueiras de drenagem em pedra trabalhada, uma mina de água. Nas casinhas modestas que ainda hoje aí subsistem, continuam a ser cultivadas pequenas hortas.


A ideia de construir um complexo destinado ao ténis é praticamente contemporânea da decisão de construir o Estádio de Honra, embora só tenha sido posta em prática mais tarde, mas sob o lápis de um dos seus grandes obreiros, Miguel Jacobetty Rosa.


O traço distintivo deste, já realçado no edifício dos Balneários do Estádio de Honra e na sua Tribuna, surge-nos novamente nas instalações destinadas ao ténis, com os seus alpendres assentes em colunatas de arco de volta perfeita.


Desde cedo, foi um local de eleição da sociedade chique, que aí se deslocava para fazer o seu “sport” e para ver e ser vista, como hoje ainda sucede durante o Estoril Open.


Os campos de ténis do Jamor desempenharam um relevante papel na história da modalidade no nosso país.


Uma escola de ténis, chamada Centro de Iniciação de Ténis da Cruz Quebrada, foi criada no contexto do Estádio Nacional em Outubro de 1967, por iniciativa do Prof. Alfredo Vaz Pinto. Foi a primeira escola de ténis em Portugal a ministrar aulas em grupo.


Em Setembro de 1972, surge o Clube de Ténis do Jamor, impulsionado por Américo Sáragga Leal, com o objectivo intuito de dar aos alunos da escola uma perspectiva de competição. Segundo os seus estatutos, o clube destinava-se a "promover a prática e expansão do ténis em estreita colaboração e apoio ao Centro de Iniciação de Ténis do Estádio Nacional".


Com o 25 de Abril, o Centro de Iniciação passou para a alçada da Direcção Geral dos Desportos, ficando portanto sob a tutela directa do Estado.


Nos finais dos anos 90, o movimento é exactamente em sentido inverso: em Março de 1989, o Estádio Nacional propôs ao Clube de Ténis do Jamor que a Escola de Iniciação voltasse a estar sob sua alçada, como ainda hoje sucede, embora já ao abrigo dum protocolo com o IDP.


As estruturas desportivas são intensamente utilizadas, por centenas de praticantes amadores e também por alguns profissionais.


Ontem, como hoje, é um dos locais emblemáticos do ténis em Portugal. Pelo seu court central, carinhosamente apelidado “Centralito”, passaram muitos nomes sonantes e outros, não menos conhecidos, pelas suas bancadas.


O Court central e os edifícios que lhe estão associados foram projectados por Miguel Jacobetty Rosa, em estilo “Português Suave”, remetendo-nos para referências campestres, de grandes alpendres de arcos romanos, duma frescura imemorial, cara aos povos peninsulares.


Esteticamente, procurou-se aligeirar a construção, dando-lhe a graciosidade e o carácter.


O court localiza-se no centro da cuva e está orientado no sentido norte-sul, sendo ladeado a nascente e poente por nove filas de bancadas dispostas em degraus. O topo sul é ocupado por um talude relvado e o topo norte pela Tribuna da Presidência. Os degraus de cantaria foram estudados de forma a garantir uma boa visibilidade.


A circulação entre os lugares faz-se através de amplas galerias com arcaria de arco de volta perfeita, que ladeiam as bancadas.


Nos corpos de gaveto de cada lado da arcaria de entrada situam-se a sala de chá, à direita, e a sala de jornalistas e sanitários, à esquerda. Os corpos de gaveto que ladeiam a Tribuna da Presidência são destinados às instalações dos jogadores de ambos os sexos.


sexta-feira, 24 de setembro de 2010

As Quintas do Estádio Nacional - O Casal do Esteiro e a "Casa da EDP"


Já perto da rampa da Boa Viagem o terreno que foi conhecido por Esteiro do Jamor, a nora e a bela casa do chefe do pessoal dos trabalhos silvícolas (...)”.[1]


A “Casa da EDP” situa-se entre a Avenida Pierre de Coubertin e a Avenida Marginal, junto ao Complexo de Piscinas do Jamor.


Trata-se dum edifício de aparência senhorial com dois pisos e dimensões generosas.


A “Casa da EDP”, nome por que é conhecida na Cruz Quebrada, situa-se nos terrenos do antigo Casal do Esteiro, uma antiga propriedade agrícola da casa de Lafões.


Está implantada numa depressão, junto ao início da antiga calçada da Boa Viagem (hoje integrada na Avenida Marginal), onde havia um aglomerado de casas de habitação e vários estabelecimentos comerciais.


Fica adjacente aos terrenos que em época recente pertenceram à Lusalite e aos Fermentos Holandeses (Gist Brocades).


No local onde estão hoje os restos da fábrica da Lusalite esteve, há anos, a fábrica de curtumes de Luís Godinho. “Era êste um tipo autêntico de velho português, barba à passa-piolho e honradez inconcussa. Morava ao lado da fábrica, com sua família, numa garrida moradia de azulejos verdes (...).[2]


Antes disso, numa memória que perdura na Cruz Quebrada, “alongava-se antigamente, o campo desportivo dos inglêses, mais antigo que as duas fábricas. [3]


Já na época da fábrica de curtumes, situava-se nesses terrenos uma praça de toiros.


O madeiramento circular apoiava-se no morro e êste formava a sua parede de um dos lados. Grande parte das dependências da praça eram escavadas na rocha – e numa delas, cuja porta fôra pintada de encarnado, faziam-se os primeiros curativos dos toireiros feridos”.[4]


Quanto à casa da EDP, pelas informações que nos dá Gilberto Monteiro, sabemos que serviu de residência ao responsável pela florestação do Estádio Nacional, aquando da sua construção nos anos 40. Não se sabe se a sua construção data dessa época ou de época anterior. Sabe-se que na zona existia já pelo menos uma casa solarenga de épocas mais recuadas.


Trata-se dum bonito edifício amplo, pintado de branco com os madeiramentos e grades pintados de verde, de linhas direitas e com um telhado de quatro águas. A época da sua construção é indeterminada, tanto se podendo tratar duma casa dos anos 40, como da adaptação dum edifício senhorial duma época anterior.


O piso inferior tem janelas de guilhotina, ao passo que as do piso superior são de duas folhas com quatro panos, sendo estes em número de seis nas portas de acesso às varandas, que estão protegidas por bonitos trabalhos em ferro forjado. As bandeiras das portas também estão protegidas por gradeamento em ferro, reproduzindo alguns elementos do trabalho utilizado nas varandas.




[1] Gilberto Monteiro em “O Sítio da Cruz-Quebrada - Nótulas de Micro-História”, separata de “O Fermento”, 1964, página 185.

[2] Branca de Gonta Colaço e Maria Archer. Memórias da Linha de Cascais”, Parceria António Maria Pereira, 1942, página 105.

[3] Branca de Gonta Colaço e Maria Archer. op. cit., página 106.

[4] Branca de Gonta Colaço e Maria Archer. op. cit., página 107.


quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Urbanização dos terrenos da Lusalite/Gist Brocades em discussão na próxima Assembleia de Freguesia

A Liga dos Amigos do Jamor chama a especial atenção de todos para o facto de que o assunto da urbanização dos terrenos da Lusalite/Gist Brocades (antiga Fábrica dos Fermentos Holandeses) será tratado na próxima Assembleia da Junta de Freguesia da Cruz-Quebrada – Dafundo, a realizar no próximo dia 30 de Setembro, pelas 21h, no auditório das Piscinas do Jamor, conforme edital anexo.

Apelamos à participação de todos nesta Assembleia, em que os cidadãos eleitores podem usar da palavra para dizer de sua justiça.

Lembramos que está em elaboração um plano de pormenor relativo a esses terrenos e que este mesmo plano será apresentado a consulta pública num futuro próximo. Por isso, é importante que todos os interessados se mantenham a par duma situação que pode ter consequências desastrosas para todos nós.

Entre outros aspectos polémicos, a urbanização prevista para estes terrenos (Projecto Porto Cruz) colide com normas sobre protecção do ambiente e das populações e viola a regulamentação sobre ordenamento do território em vigor. Implica o desaparecimento da praia da Cruz Quebrada, a relocalização da estação de caminhos-de-ferro e um aumento significativo do tráfego, do ruído e da poluição do ar e da água (neste último caso, por via da construção da marina e do aterro que entrará pelo rio adentro). As torres de 100 metros de altura a construir na foz do Rio Jamor terão um impacto avassalador na paisagem.

A Liga dos Amigos do Jamor concorda que é urgente proceder à requalificação desses terrenos, até porque estarão seguramente contaminados por amianto. É do conhecimento público que os edifícios da antiga fábrica da Lusalite estão literalmente forrados a amianto (paredes e coberturas), uma situação que deveria ter sido resolvida há muito, pelo perigo para a saúde pública que representou durante dezenas de anos (com mortes a lamentar) e continua a representar nos dias de hoje. Há pessoas a trabalhar nesses edifícios e há seguramente libertação de fibras de amianto para o meio ambiente, em virtude da degradação natural dos materiais, expostos há décadas à acção do vento, do sol e do sal!

Mas requalificação e descontaminação dos terrenos não significa construção a torto e a direito, sem ter em conta a legislação em vigor, nem os direitos e as legítimas expectativas das populações, principalmente daquelas que serão directamente afectadas por este projecto.

Por isso, não deixe de participar na Assembleia do próximo dia 30 de Setembro!

“EDITAL

RICARDO MIGUEL FIGUEIREDO DE SOUSA PINTO, Presidente da Assembleia de Freguesia da Cruz Quebrada – Dafundo, ao abrigo da Lei nº 169/99, que foi alterada e republicada pela Lei nº 5-A/2002 – artigo 19º, convoca a Assembleia de Freguesia, a reunir em Sessão Ordinária, no próximo dia 30 de Setembro, pelas 21H00, no Auditório das Piscinas do Jamor.

ORDEM DE TRABALHOS

1 – Assuntos de interesse para a Freguesia

2 – Aprovação da acta da última sessão

3 – Plano Pormenor do Rio Jamor

4 – Informação do 2º e 3ª Trimestre das actividades do Presidente da Junta de Freguesia

5 – Aprovação do Regulamento de Inventário e Património

6 – 2ª Revisão orçamental

Cruz Quebrada, 14 de Setembro de 2010

O Presidente da Assembleia de Freguesia

Ricardo Miguel Pinto”

As Quintas do Estádio Nacional - O Casal do Esteiro e o Farol com o mesmo nome


O Farol do Esteiro localiza-se no Alto do Esteiro, na mata do Estádio Nacional, aproximadamente 760 metros a NE do farol da Gibalta. Define, conjuntamente com este e com o farol da Mama (Serra de Carnaxide), o enfiamento da entrada da barra Sul do porto de Lisboa.


É uma torre prismática branca, de alvenaria, com duas faixas horizontais vermelhas ao meio, com edifício anexo. Está localizado a uma altitude de 82 metros relativamente ao nível do mar e a torre tem uma altura de 15 metros. Apresenta uma luz vermelha, fixa, gerada por aparelho óptico dióptrico catadióptrico, tipo olho-de-boi de 5ª ordem, com um alcance de 21 milhas e iluminação de sector de 15º. Nº nacional 212 e nº internacional D-2127.1.


O farol deve o seu nome ao local onde está implantado, o antigo Casal do Esteiro, junto à foz do Rio Jamor e que pertenceu à casa de Lafões, onde, na sequência do grande terramoto de 1755, se abriram “grandes olhões por onde gorgolejava água de mistura com areia branca[1].


No Aviso aos Navegantes nº 4 de 7 de Abril de 1913, a Direcção Geral de Marinha comunicava: “Que as luzes de direcção do canal de entrada da Barra Grande do Pôrto de Lisboa, actualmente instaladas no mirante de Caxias e em Pôrto Covo, vão ser transferidas respectivamente para os locais, em que se acham as marcas do Esteiro e da Gibalta, marcas que, conjuntamente com a marca da Mama, assinalam o eixo daquele canal (...)”.


O farol do Esteiro entrou em funcionamento em Maio de 1914, juntamente com o da Gibalta, mas, devido à 1ª Guerra Mundial, esteve apagado entre Março de 1916 e Dezembro de 1918.


As faixas centrais foram pintadas em 1926 na face sudoeste da torre, passando a apresentar 5 faixas alternadas brancas e vermelhas.


O edifício anexo foi construído em 1949, para albergar um rádio farol, passando a estar apagado a partir das 9:00 (entre Novembro e Fevereiro) e 1 hora após o nascer do sol nos restantes meses, a partir de 1950. O rádio farol direccional que foi instalado nesta época foi desactivado na década de 70. Foi electrificado por ligação à rede pública em 1951, mantendo um gerador de reserva em caso de falha da corrente, passando a luz do farol para fixa ritmada. Em 1957, foi montado um novo equipamento eléctrico que, no caso da falha de corrente, passa automaticamente a gás acetileno. Em 1960, a visibilidade do edifício foi ampliada pela instalação de 2 luzes fixas vermelhas que se mantinham acesas até às 12:00, mas que foram retiradas no ano seguinte. Em 1970, são instaladas 4 lâmpadas fluorescentes de 40W em armaduras estanques exteriores, mas foram retiradas alguns anos mais tarde. Foi automatizado em 1981, passando a ser monitorizado a partir da Central de Paço de Arcos, deixando de estar guarnecido por faroleiros.


Como desenvolvimentos mais recentes destacam-se o funcionamento em regime permanente entre 1 de Outubro e 15 de Março, a partir de 1987, o funcionamento em permanência e a instalação de um Racon “Q” em 1997 e a instalação de um novo sistema de monitorização (“ONROM”) em 2000.




[1] Retirado de “Oeiras”, Imprensa Portugal – Brasil, Lisboa, 1940, citado por José Pedro Machado em “Ensaio sobre a toponímia do concelho de Oeiras”, Câmara Municipal de Oeiras, 1980.



quarta-feira, 22 de setembro de 2010

As Quintas do Estádio Nacional - A História da Capela da Boa Viagem e da Vila com o mesmo nome

A Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem está situada no extremo sul do Alto do Esteiro, no Monte da Boa Viagem, em terrenos hoje integrados no Estádio Nacional.


Tem a fachada principal revestida a azulejo de figura avulsa dos sécs. XVII e XVIII, com alpendre anexo onde figura uma lápide com a seguinte inscrição:


PN AM Pl as Almas

Exmo. Sr. Conde de Vila Flor mandou

faser esta hermida de N.ª S.ª do Populo

em agradecimento de hum milagre

que lhe fes de o livrar de huma

enfermidade que padecia concorrendo

o grande zelo e trabalho do Irmão

Fr. Bras de Jesus M.ª religioso leigo

desta Província, natural da Ilha

de S. Miguel o qual muito amor

que sempre lhe teve a esta imagem lhe

acestiu athe o fim desta sua obra

na era de 1734.


Esta lápide tem levado assim muita gente a supor, erradamente e como referiremos adiante, que a capela seria do século XVIII e teria sido mandada construir pelo Conde de Vila Flor.


Na realidade, esta capela foi construída nos anos 40 do século passado e restaurada em 2006 através duma parceria entre a Junta de Freguesia da Cruz Quebrada - Dafundo e a Câmara Municipal de Oeiras.


Está classificada desde 2004 como imóvel de valor concelhio, de acordo com o Edital nº 184/2004 (2ª série), publicado no Diário da República nº 67, IIª série, de 19/03/2004.


A sua história é longa e complexa. Por doação testamentária de António Faleiro de Abreu em 1618, foram comprados os terrenos e casas de adobe no sítio chamado "Terras do Cano" ou “Cano do Mouro”, entre o "Alto do Esteiro" e o "Alto do Reduto Sul" do Forte de Caxias, para albergar os frades arrábicos fugidos do Convento de Santa Catarina de Ribamar, que estava em ruínas. Este novo convento primeiro chamou-se também Convento de Santa Catarina de Ribamar, mas depois, quando o Conde de Miranda reconstruiu o Convento de Ribamar e alguns frades regressaram ao convento de origem com a imagem da sua padroeira, passou a chamar-se Convento de Nossa Senhora da Boa Viagem.


A imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem, que estava num nicho sobre a capela-mor, passa então para o principal lugar do Altar. “He de primorosa e excelente escultura, tem o Menino Deus sobre o braço esquerdo e na mão direita hum navio, como geroglyfico do título que logra...”[1]


Nos primeiros tempos, este novo convento e a sua padroeira suscitaram a devoção de pescadores, que acorriam ao Alto da Boa Viagem em romarias, procissões e peregrinações, mas, com o tempo, a Nossa Senhora da Boa Viagem passou a ser a protectora das senhoras da nobreza e da corte a braços com as agruras do parto. Assim, o modesto Convento da Boa Viagem veio a receber preciosas oferendas de grande valor.


Em 1649, D. António Luís de Meneses, Conde de Cantanhede, manda construir uma pequena fortificação no Monte da Boa Viagem, o Forte de Nossa Senhora da Boa Viagem, integrada na linha de defesa da Barra do Tejo e artilhada com 4 bocas de ferro. Esta fortificação foi reparada diversas vezes. Em 1798, foi sujeita a uma visita de inspecção que considerou que o edifício estava em ruínas e ao abandono. Foi assim decidido que a sua reparação era inútil e o edifício foi posteriormente abandonado por se considerar que a sua altitude não permitia que contribuísse para a defesa costeira. Foi cedido à viúva de um soldado, encontrando-se em estado de ruína no final do séc. XVIII.


Em 1818, existiam no local do Forte de Nossa Senhora da Boa Viagem algumas edificações em ruínas, algumas casas isoladas e a casa senhorial do Conde de Vila Flor. Não se sabe qual dos condes terá mandado construir esta casa, mas julga-se que se deverá ao 1º Conde de Vila Flor, companheiro de armas do Conde de Cantanhede (que mandou erigir o Forte de Nossa Senhora da Boa Viagem), ou ao 4º Conde de Vila Flor, referido na lápide embutida no alpendre da actual Capela da Nossa Senhora da Boa Viagem.


Em 1834, com a extinção das ordens religiosas, os bens do Convento de Nossa Senhora da Boa Viagem foram confiscados e posteriormente vendidos a Faustino da Gama, par do Reino. Os edifícios foram ampliados e transformados em estância de veraneio, constituindo a Vila da Boa Viagem.


A Condessa de Silva Sanches, sucessora de Faustino da Gama e residente na Vila da Boa Viagem, imprimiu uma grande dinâmica a esta Vila, tendo aí passados férias pessoas de grande renome.


Na década de 30 do século XX, a Condessa vendeu todos os bens a Fausto Figueiredo, que ficou conhecido como empresário do Casino Estoril e do Caminho de Ferro e que depois veio também, por sua vez, a vender este património.


Em 1940, o Estado expropriou 1/3 terço da área, que ficou integrada no Estádio Nacional, ficando os restantes 2/3 nas mãos de um particular e sendo depois integrados na freguesia de Caxias. Estes últimos são hoje conhecidos por “Alto da Boa Viagem” ou por terrenos da “Casa de Chá” e ficam no vale a sul do Hospital-Prisão de Caxias. Ainda se podem ver alguns restos da antiga cerca onde se cultivava a horta e o pomar, com nora, tanque, aqueduto, etc.


Quanto à actual Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem, foi construída na década de 40 do século transacto, por ocasião da construção do Estádio Nacional, nas cercanias do local onde se encontravam os restos do antigo Convento de Nossa Senhora da Boa Viagem.

A lápide que se encontra no alpendre é de origem incerta. Levy Nunes Gomes[2] conjectura que terá sido encontrada no entulho resultante da demolição, nos anos 40, dos restos do convento, do Forte de Nossa Senhora da Boa Viagem e das casas próximas, entre as quais se encontrava a casa do Conde de Vila Flor, referido nessa lápide. A lápide teria assim origem numa ermida mandada construir pelo 4º Conde de Vila Flor em honra de Nossa Senhora do Pópulo, num momento de grande aflição devido a enfermidade.


É um edifício em estilo Português Suave, apresentando muitos dos elementos característicos do mesmo: alvenaria e cantaria, telhado de duas águas inclinadas com beirais de telha vermelha, arcadas, pináculos, cornijas e socos em cantaria. Formada por dois corpos contíguos, em que o correspondente à nave está sobrelevado em cerca de 50cm e está pintado de branco. Telhado de telha lusa, com beiral duplo do mesmo material e rodapé de cantaria nas fachadas norte, leste e sul. Fachada principal (oeste) revestida a azulejo azul e branco de figura avulsa dos sécs. XVII e XVIII.


A fachada leste é cega, enquanto que na fachada norte existem duas janelas gradeadas com padieira, ombreira e peitoril de cantaria. A fachada sul tem uma parte cega e um alpendre aberto em arcada, de colunas assentes em pilares de cantaria, acessível por dois degraus.


No interior do alpendre, de chão de cantaria, existe um banco com assento do mesmo material, uma janela com características semelhantes na parede virada a sul e, na parede interior virada a oeste, encontra-se uma lápide do séc. XVIII.


A fachada oeste corresponde à principal, tendo a entrada para a capela e acesso independente ao alpendre anexo. O acesso à capela é efectuado por meio de degrau de cantaria e porta de madeira, com padieira guarnecida em cantaria. A fachada é rematada por cornija triangular de cantaria, encimada por cruz e com pináculos de cantaria, assente em pilares e socos do mesmo material. O acesso ao alpendre é efectuado por meio de arco aberto, acessível por meio de dois degraus.



[1] Henrique Marques, citado por Gilberto Monteiro em “O Sítio da Cruz-Quebrada - Nótulas de Micro-História”, separata de “O Fermento”, 1964.

[2] Na sua obra “Cruz Quebrada – Dafundo, Património e Personalidades”, Câmara Municipal de Oeiras, 2006.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

As Quintas do Estádio Nacional - A Quinta do Balteiro


As ruínas da Quinta do Balteiro estão situadas no topo noroeste do Complexo Desportivo Nacional do Jamor, junto à actual pista de corta-mato. São ainda visíveis os restos de campos de cultivo e algumas estruturas agrícolas.


Correspondia a um conjunto de edifícios com jardim e pomar murado e integrava uma nora junto ao Jamor. Segundo alguns, tratar-se-ia duma casa de lavoura aristocrática, mas esta informação não pôde ser confirmada.


A Quinta do Balteiro está classificada no Plano de Salvaguarda do Património Construído e Ambiental do Concelho de Oeiras como Edifício Representativo da Tecnologia Construtiva da Época.


As referências históricas encontradas indicam que se trataria duma construção do século XIX, embora as suas características arquitectónicas nos remetam para épocas bem anteriores (século XVIII ou mesmo anterior).


Dos tempos mais antigos nada se sabe, apesar de se tratar claramente dum conjunto edificado importante pela sua dimensão e características arquitectónicas, que denunciam a riqueza dos seus antigos proprietários. Além disso aparenta ser de origem bem mais remota do que o século XIX.


Nos final dos anos 30 do século passado, sabe-se que pertencia a Paulo Balteiro, cujo nome figura na lista dos proprietários dos terrenos expropriados para construir o Estádio Nacional.


Já depois da Revolução de 1975, nos anos dramáticos que se seguiram à descolonização de Timor, a zona da Quinta do Balteiro serviu de refúgio a muitos timorenses, que aí viveram largos anos em barracas e em condições indignas. Dessa triste época, ficou-lhe um nome: “Vale da Morte Lenta”.


Anos mais tarde, já depois dos timorenses terem encontrado morada mais digna, foi construída uma pista de corta-mato em parte do vale e numa parte da encosta, na sequência da histórica vitória de Carlos Lopes no Campeonato do Mundo de corta-mato, que se tinha realizado em 1985 na margem oposta do rio, nos terrenos inicialmente destinados a um hipódromo.


No final dos anos 90 do século XX, os terrenos agrícolas da Quinta do Balteiro ainda eram explorados por um casal de idosos, que vendia os produtos agrícolas em Linda-a-Pastora.


Hoje, da casa só restam as ruínas e os restos de alguns anexos de vocação agrícola. Dos terrenos de agricultura, nada subsiste, com excepção dos terraços de cultivo, que ainda hoje são visíveis.


A Quinta do Balteiro é composta por uma casa de habitação principal e dois anexos de vocação agrícola e habitação rural.


A casa principal é um belo edifício pintado de rosa velho, com cantaria em pedra e elementos em ferro forjado nas janelas e gradeamentos. Apresenta um pé direito bastante baixo, o que nos faz situar a sua construção em época mais distante que o século XIX. A fachada nobre, virada a oeste, tem um alpendre com escadaria, de acesso ao piso superior, bastante mais amplo que o piso inferior.


Este tipo de configuração, remete-nos para as habitações de matriz agrícola, em que o piso inferior é utilizado para guardar as alfaias e recolher os animais e o piso superior se destina a habitação, neste caso dum lavrador abastado ou mesmo da nobreza rural, tendo em conta as dimensões da casa.


Por baixo do alpendre, existe um nicho, hoje vazio. À esquerda da escadaria de acesso ao alpendre existe um muro com vários elementos decorativos, encimados pelo que parece ter sido uma armação para colocação de um sino. Quando olhamos este muro da parte de trás, apercebemo-nos que terá sido aqui um portão de acesso, hoje entaipado, às traseiras do edifício.


As traseiras da casa principal e do anexo que a ladeia (que aparenta ter sido a residência dos caseiros ou doutros trabalhadores rurais) estão viradas para uma zona resguardada, onde o acesso do exterior se faria por um portão mais modesto, ainda hoje visível. Nessa zona, existem um tanque e um fontanário em pedra, com decorações simples.


Nos campos de cultivo abandonado, são bem visíveis os terraços, bem como as ruínas duma imponente nora. O pequeno anexo junto ao rio é uma curiosa estrutura hexagonal com um telhado de seis águas coberto por telha canudo.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

As Quintas do Estádio Nacional - A Quinta das Biscoiteiras



A Quinta das Biscoiteiras está classificada no Plano de Salvaguarda do Património Construído e Ambiental do Concelho de Oeiras como edifício representativo da tecnologia construtiva da época (EC).


Trata-se dum conjunto edificado que sofreu várias transformações ao longo do tempo, estando os edifícios mais antigos algo descaracterizados.


Pensa-se que a construção remonte ao séc. XIX.


Não foi possível encontrar informações fidedignas sobre as origens desta quinta e a sua história. A configuração de dois dos seus edifícios principais remete-nos para os chalets de recreio, para a época de banhos do século XIX, mas não foi possível confirmar esta utilização.


O seu nome, idêntico ao da estrada que lhe fica ao lado, sugere-nos que aí terão sido fabricados biscoitos, mas trata-se duma mera sugestão, que também não foi possível confirmar.


É composta por um pequeno conjunto de edifícios de épocas díspares e que terão tido também funções diferentes. Enquanto alguns nos remetem para uma utilização agrícola e modesta, pela sua construção grosseira e aberturas estreitas, os dois edifícios que ficam mais junto da estrada ainda conservam características de graciosos chalets de veraneio.



Vistos do Vale do Jamor, apresentam-se-nos o que parecem ser três ou quatro edifícios diferentes. O que se situa num plano mais baixo é uma construção atarracada, de paredes grossas e aberturas relativamente pequenas. Está sustentado por contrafortes.


Os edifícios do plano junto à estrada têm características mais requintadas. O primeiro, para quem vem de Linda-a-Velha, é um gracioso pequeno chalet em branco e verde, com janelas de trapeira no sótão e cantaria de pedra nas janelas e portas.


O seguinte, é um edifício bastante maior, mas com características semelhantes. Também está pintado de branco e verde e tem janelas de trapeira e cantaria de pedra nas janelas e portas. Tem ainda dois varandins em ferro no fachada norte.


Uma parte dos terrenos ainda são cultivados e ainda é possível ver os antigos terraços de cultivo, sustentados por muros de pedra sobreposta.





sexta-feira, 17 de setembro de 2010

As Quintas do Estádio Nacional - A Quinta da Graça



Segundo as fontes consultadas, a Quinta da Graça teria sido construída sobre o Convento dos Frades Gracianos (agostinhos descalços), no século XVIII.


Algumas referências encontradas indicam que teria sido mandada construir por José Manuel Machado, armador marítimo com escritórios em Lisboa, Cádis e S. Salvador da Baía, cuja marca de homem do mar estaria patente na muralha do lado Norte do edifício, que representaria a proa dum navio.


Este José Manuel Machado é talvez a mesma pessoa que o negociante Manuel José Machado, proprietário da Quinta e Casal do Esteiro, que tinham sido propriedade da casa do Duque de Lafões. Os terrenos da Quinta da Graça fariam parte ou confinariam com os desta grande propriedade.


Em meados do século XIX, seria um sobrinho deste Manuel José Machado, João José Machado, veterinário e lavrador, que seria proprietário da Quinta da Graça.


Uma placa em pedra afixada na fachada oeste, tem as seguintes inscrições gravadas “JJM A 1856”, correspondentes talvez às iniciais de João José Machado.


Uma pequena placa afixada numa das paredes da casa principal da quinta tem as seguintes inscrições pintadas “F.X.M. 1860”.


A fazer fé na genealogia da sua última proprietária, Maria da Graça Lewtus Machado, a casa teria assim sido construída por um ascendente de Francisco Xavier Machado (nascido em 1868) ou da sua esposa, Maria Jacinta Machado (nascida em 1865) ou mesmo por um ascendente comum. Na verdade, já existem referências à Quinta da Graça em 1865, pelo que esta já existia no tempo em que Francisco Xavier e Maria Jacinta nasceram.


Como conciliar todas estas informações? A única forma plausível que vemos é conjecturar que foi um filho de João José Machado, de seu nome Francisco Xavier Machado, que mandou proceder a grandes reformas na Quinta da Graça em 1860. Este Francisco Xavier Machado seria pai do outro Francisco Xavier Machado, que casou com Maria Jacinta.


Há indícios de que Maria Jacinta seria a famosa “Machado das barbas”. Ficou conhecida por ser uma senhora “fina, abastada, caritativa, mas que só alcançou passar à história por ser proprietária dumas barbas e duns bigodes verdadeiramente fantásticos. Barbas longas, opulentas, que nunca cortava, que nunca desbastava, que exibia como uma segunda cabeleira" (1). Segundo uma fonte, teria casado duas vezes, mas só conseguimos encontrar o registo de um casamento, precisamente com Francisco Xavier Machado.


Desse casamento, só nasceu um filho, José António Machado, em 1887. Seria um rapaz “que gozava da fama de ser um rapaz perfeito e querido das beldades” (2). Veio a casar com uma senhora estrangeira, de seu nome Agnes Lewtus. É deste casamento que nasce uma filha única, Maria da Graça Lewtus Machado, que veio a casar com António Vicente de Sousa Vinagre.


Já no Estado Novo, Duarte Pacheco e a sua comitiva teriam entrado na quinta sem autorização para inspeccionar os terrenos. A sua proprietária foi avisada pelos trabalhadores quando estava a ver as culturas, montada a cavalo. Não esteve com meias medidas: esporeou o cavalo e expulsou os invasores sem quaisquer contemplações. Essa ousadia saiu-lhe cara. Foram-lhes dados apenas 3 meses para deixar a quinta e, como não o conseguiu fazer, teve de pagar renda na sua própria casa durante vários meses até conseguir arrendar uma outra propriedade na Cruz Quebrada.


Segundo familiares da última proprietária, a casa principal representa um dos famosos “casinos flutuantes" (3) do Mississipi, uma referência que nos remete para meados ou finais do século XIX, a época áurea destes vapores no Mississipi. É possível que essa configuração se deva a José António Machado, pai de Maria da Graça, uma hipótese que ganha alguma credibilidade devido ao facto do nome da sua esposa poder ser de origem americana. É também possível que se deva ao seu avô, Francisco Xavier Machado, cujas iniciais figuram na placa afixada nas paredes da casa principal, um indício de que teria sido o autor de grandes obras na mesma.


Tendo em conta o que foi exposto, existe assim alguma incerteza sobre esta quinta, principalmente sobre a sua casa principal.


A seguir à expropriação pelo Estado Novo, uma parte dos terrenos serviu para construir o Instituto Nacional de Educação Física (INEF), hoje Faculdade de Motricidade Humana (FMH). Quanto à casa, durante anos esteve ao abandono, tendo posteriormente servido de abrigo a retornados das antigas colónias. Em 1993, um grande incêndio destruiu quase totalmente a casa principal, de que praticamente só restam as fachadas e parte dos jardins.


Nesse incêndio, foi também destruída uma capela dedicada a Nossa Senhora da Graça que estava integrada no palácio e que teria admiráveis vitrais, mármores, frescos, tectos pintados e belíssimas telas, em que se destacava um valioso quadro dos magos.

Dos tempos áureos da Quinta da Graça, ficou-nos uma ruína.






(1) Branca de Gonta Colaço e Maria Archer, “Memórias da Linha de Cascais”, Parceria António Maria Pereira, 1942, página 107.

(2) Branca de Gonta Colaço e Maria Archer, op. cit., página 108.

(3) Embora sejam frequentemente conhecidos por “casinos flutuantes”, esta designação não é correcta porque se tratava de jogo informal entre os passageiros e não duma forma organizada (casino).