quarta-feira, 22 de setembro de 2010

As Quintas do Estádio Nacional - A História da Capela da Boa Viagem e da Vila com o mesmo nome

A Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem está situada no extremo sul do Alto do Esteiro, no Monte da Boa Viagem, em terrenos hoje integrados no Estádio Nacional.


Tem a fachada principal revestida a azulejo de figura avulsa dos sécs. XVII e XVIII, com alpendre anexo onde figura uma lápide com a seguinte inscrição:


PN AM Pl as Almas

Exmo. Sr. Conde de Vila Flor mandou

faser esta hermida de N.ª S.ª do Populo

em agradecimento de hum milagre

que lhe fes de o livrar de huma

enfermidade que padecia concorrendo

o grande zelo e trabalho do Irmão

Fr. Bras de Jesus M.ª religioso leigo

desta Província, natural da Ilha

de S. Miguel o qual muito amor

que sempre lhe teve a esta imagem lhe

acestiu athe o fim desta sua obra

na era de 1734.


Esta lápide tem levado assim muita gente a supor, erradamente e como referiremos adiante, que a capela seria do século XVIII e teria sido mandada construir pelo Conde de Vila Flor.


Na realidade, esta capela foi construída nos anos 40 do século passado e restaurada em 2006 através duma parceria entre a Junta de Freguesia da Cruz Quebrada - Dafundo e a Câmara Municipal de Oeiras.


Está classificada desde 2004 como imóvel de valor concelhio, de acordo com o Edital nº 184/2004 (2ª série), publicado no Diário da República nº 67, IIª série, de 19/03/2004.


A sua história é longa e complexa. Por doação testamentária de António Faleiro de Abreu em 1618, foram comprados os terrenos e casas de adobe no sítio chamado "Terras do Cano" ou “Cano do Mouro”, entre o "Alto do Esteiro" e o "Alto do Reduto Sul" do Forte de Caxias, para albergar os frades arrábicos fugidos do Convento de Santa Catarina de Ribamar, que estava em ruínas. Este novo convento primeiro chamou-se também Convento de Santa Catarina de Ribamar, mas depois, quando o Conde de Miranda reconstruiu o Convento de Ribamar e alguns frades regressaram ao convento de origem com a imagem da sua padroeira, passou a chamar-se Convento de Nossa Senhora da Boa Viagem.


A imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem, que estava num nicho sobre a capela-mor, passa então para o principal lugar do Altar. “He de primorosa e excelente escultura, tem o Menino Deus sobre o braço esquerdo e na mão direita hum navio, como geroglyfico do título que logra...”[1]


Nos primeiros tempos, este novo convento e a sua padroeira suscitaram a devoção de pescadores, que acorriam ao Alto da Boa Viagem em romarias, procissões e peregrinações, mas, com o tempo, a Nossa Senhora da Boa Viagem passou a ser a protectora das senhoras da nobreza e da corte a braços com as agruras do parto. Assim, o modesto Convento da Boa Viagem veio a receber preciosas oferendas de grande valor.


Em 1649, D. António Luís de Meneses, Conde de Cantanhede, manda construir uma pequena fortificação no Monte da Boa Viagem, o Forte de Nossa Senhora da Boa Viagem, integrada na linha de defesa da Barra do Tejo e artilhada com 4 bocas de ferro. Esta fortificação foi reparada diversas vezes. Em 1798, foi sujeita a uma visita de inspecção que considerou que o edifício estava em ruínas e ao abandono. Foi assim decidido que a sua reparação era inútil e o edifício foi posteriormente abandonado por se considerar que a sua altitude não permitia que contribuísse para a defesa costeira. Foi cedido à viúva de um soldado, encontrando-se em estado de ruína no final do séc. XVIII.


Em 1818, existiam no local do Forte de Nossa Senhora da Boa Viagem algumas edificações em ruínas, algumas casas isoladas e a casa senhorial do Conde de Vila Flor. Não se sabe qual dos condes terá mandado construir esta casa, mas julga-se que se deverá ao 1º Conde de Vila Flor, companheiro de armas do Conde de Cantanhede (que mandou erigir o Forte de Nossa Senhora da Boa Viagem), ou ao 4º Conde de Vila Flor, referido na lápide embutida no alpendre da actual Capela da Nossa Senhora da Boa Viagem.


Em 1834, com a extinção das ordens religiosas, os bens do Convento de Nossa Senhora da Boa Viagem foram confiscados e posteriormente vendidos a Faustino da Gama, par do Reino. Os edifícios foram ampliados e transformados em estância de veraneio, constituindo a Vila da Boa Viagem.


A Condessa de Silva Sanches, sucessora de Faustino da Gama e residente na Vila da Boa Viagem, imprimiu uma grande dinâmica a esta Vila, tendo aí passados férias pessoas de grande renome.


Na década de 30 do século XX, a Condessa vendeu todos os bens a Fausto Figueiredo, que ficou conhecido como empresário do Casino Estoril e do Caminho de Ferro e que depois veio também, por sua vez, a vender este património.


Em 1940, o Estado expropriou 1/3 terço da área, que ficou integrada no Estádio Nacional, ficando os restantes 2/3 nas mãos de um particular e sendo depois integrados na freguesia de Caxias. Estes últimos são hoje conhecidos por “Alto da Boa Viagem” ou por terrenos da “Casa de Chá” e ficam no vale a sul do Hospital-Prisão de Caxias. Ainda se podem ver alguns restos da antiga cerca onde se cultivava a horta e o pomar, com nora, tanque, aqueduto, etc.


Quanto à actual Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem, foi construída na década de 40 do século transacto, por ocasião da construção do Estádio Nacional, nas cercanias do local onde se encontravam os restos do antigo Convento de Nossa Senhora da Boa Viagem.

A lápide que se encontra no alpendre é de origem incerta. Levy Nunes Gomes[2] conjectura que terá sido encontrada no entulho resultante da demolição, nos anos 40, dos restos do convento, do Forte de Nossa Senhora da Boa Viagem e das casas próximas, entre as quais se encontrava a casa do Conde de Vila Flor, referido nessa lápide. A lápide teria assim origem numa ermida mandada construir pelo 4º Conde de Vila Flor em honra de Nossa Senhora do Pópulo, num momento de grande aflição devido a enfermidade.


É um edifício em estilo Português Suave, apresentando muitos dos elementos característicos do mesmo: alvenaria e cantaria, telhado de duas águas inclinadas com beirais de telha vermelha, arcadas, pináculos, cornijas e socos em cantaria. Formada por dois corpos contíguos, em que o correspondente à nave está sobrelevado em cerca de 50cm e está pintado de branco. Telhado de telha lusa, com beiral duplo do mesmo material e rodapé de cantaria nas fachadas norte, leste e sul. Fachada principal (oeste) revestida a azulejo azul e branco de figura avulsa dos sécs. XVII e XVIII.


A fachada leste é cega, enquanto que na fachada norte existem duas janelas gradeadas com padieira, ombreira e peitoril de cantaria. A fachada sul tem uma parte cega e um alpendre aberto em arcada, de colunas assentes em pilares de cantaria, acessível por dois degraus.


No interior do alpendre, de chão de cantaria, existe um banco com assento do mesmo material, uma janela com características semelhantes na parede virada a sul e, na parede interior virada a oeste, encontra-se uma lápide do séc. XVIII.


A fachada oeste corresponde à principal, tendo a entrada para a capela e acesso independente ao alpendre anexo. O acesso à capela é efectuado por meio de degrau de cantaria e porta de madeira, com padieira guarnecida em cantaria. A fachada é rematada por cornija triangular de cantaria, encimada por cruz e com pináculos de cantaria, assente em pilares e socos do mesmo material. O acesso ao alpendre é efectuado por meio de arco aberto, acessível por meio de dois degraus.



[1] Henrique Marques, citado por Gilberto Monteiro em “O Sítio da Cruz-Quebrada - Nótulas de Micro-História”, separata de “O Fermento”, 1964.

[2] Na sua obra “Cruz Quebrada – Dafundo, Património e Personalidades”, Câmara Municipal de Oeiras, 2006.

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