sexta-feira, 17 de setembro de 2010

As Quintas do Estádio Nacional - A Quinta da Graça



Segundo as fontes consultadas, a Quinta da Graça teria sido construída sobre o Convento dos Frades Gracianos (agostinhos descalços), no século XVIII.


Algumas referências encontradas indicam que teria sido mandada construir por José Manuel Machado, armador marítimo com escritórios em Lisboa, Cádis e S. Salvador da Baía, cuja marca de homem do mar estaria patente na muralha do lado Norte do edifício, que representaria a proa dum navio.


Este José Manuel Machado é talvez a mesma pessoa que o negociante Manuel José Machado, proprietário da Quinta e Casal do Esteiro, que tinham sido propriedade da casa do Duque de Lafões. Os terrenos da Quinta da Graça fariam parte ou confinariam com os desta grande propriedade.


Em meados do século XIX, seria um sobrinho deste Manuel José Machado, João José Machado, veterinário e lavrador, que seria proprietário da Quinta da Graça.


Uma placa em pedra afixada na fachada oeste, tem as seguintes inscrições gravadas “JJM A 1856”, correspondentes talvez às iniciais de João José Machado.


Uma pequena placa afixada numa das paredes da casa principal da quinta tem as seguintes inscrições pintadas “F.X.M. 1860”.


A fazer fé na genealogia da sua última proprietária, Maria da Graça Lewtus Machado, a casa teria assim sido construída por um ascendente de Francisco Xavier Machado (nascido em 1868) ou da sua esposa, Maria Jacinta Machado (nascida em 1865) ou mesmo por um ascendente comum. Na verdade, já existem referências à Quinta da Graça em 1865, pelo que esta já existia no tempo em que Francisco Xavier e Maria Jacinta nasceram.


Como conciliar todas estas informações? A única forma plausível que vemos é conjecturar que foi um filho de João José Machado, de seu nome Francisco Xavier Machado, que mandou proceder a grandes reformas na Quinta da Graça em 1860. Este Francisco Xavier Machado seria pai do outro Francisco Xavier Machado, que casou com Maria Jacinta.


Há indícios de que Maria Jacinta seria a famosa “Machado das barbas”. Ficou conhecida por ser uma senhora “fina, abastada, caritativa, mas que só alcançou passar à história por ser proprietária dumas barbas e duns bigodes verdadeiramente fantásticos. Barbas longas, opulentas, que nunca cortava, que nunca desbastava, que exibia como uma segunda cabeleira" (1). Segundo uma fonte, teria casado duas vezes, mas só conseguimos encontrar o registo de um casamento, precisamente com Francisco Xavier Machado.


Desse casamento, só nasceu um filho, José António Machado, em 1887. Seria um rapaz “que gozava da fama de ser um rapaz perfeito e querido das beldades” (2). Veio a casar com uma senhora estrangeira, de seu nome Agnes Lewtus. É deste casamento que nasce uma filha única, Maria da Graça Lewtus Machado, que veio a casar com António Vicente de Sousa Vinagre.


Já no Estado Novo, Duarte Pacheco e a sua comitiva teriam entrado na quinta sem autorização para inspeccionar os terrenos. A sua proprietária foi avisada pelos trabalhadores quando estava a ver as culturas, montada a cavalo. Não esteve com meias medidas: esporeou o cavalo e expulsou os invasores sem quaisquer contemplações. Essa ousadia saiu-lhe cara. Foram-lhes dados apenas 3 meses para deixar a quinta e, como não o conseguiu fazer, teve de pagar renda na sua própria casa durante vários meses até conseguir arrendar uma outra propriedade na Cruz Quebrada.


Segundo familiares da última proprietária, a casa principal representa um dos famosos “casinos flutuantes" (3) do Mississipi, uma referência que nos remete para meados ou finais do século XIX, a época áurea destes vapores no Mississipi. É possível que essa configuração se deva a José António Machado, pai de Maria da Graça, uma hipótese que ganha alguma credibilidade devido ao facto do nome da sua esposa poder ser de origem americana. É também possível que se deva ao seu avô, Francisco Xavier Machado, cujas iniciais figuram na placa afixada nas paredes da casa principal, um indício de que teria sido o autor de grandes obras na mesma.


Tendo em conta o que foi exposto, existe assim alguma incerteza sobre esta quinta, principalmente sobre a sua casa principal.


A seguir à expropriação pelo Estado Novo, uma parte dos terrenos serviu para construir o Instituto Nacional de Educação Física (INEF), hoje Faculdade de Motricidade Humana (FMH). Quanto à casa, durante anos esteve ao abandono, tendo posteriormente servido de abrigo a retornados das antigas colónias. Em 1993, um grande incêndio destruiu quase totalmente a casa principal, de que praticamente só restam as fachadas e parte dos jardins.


Nesse incêndio, foi também destruída uma capela dedicada a Nossa Senhora da Graça que estava integrada no palácio e que teria admiráveis vitrais, mármores, frescos, tectos pintados e belíssimas telas, em que se destacava um valioso quadro dos magos.

Dos tempos áureos da Quinta da Graça, ficou-nos uma ruína.






(1) Branca de Gonta Colaço e Maria Archer, “Memórias da Linha de Cascais”, Parceria António Maria Pereira, 1942, página 107.

(2) Branca de Gonta Colaço e Maria Archer, op. cit., página 108.

(3) Embora sejam frequentemente conhecidos por “casinos flutuantes”, esta designação não é correcta porque se tratava de jogo informal entre os passageiros e não duma forma organizada (casino).

4 comentários:

  1. Interessante esta ideia de publicar informações sobre o património construído na área do Estádio Nacional. Já agora: também gostei do novo "look".

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  2. Obrigado pelo seu comentário. Vamos continuar a publicar estes artigos porque o nosso ponto de partida foi sempre sermos construtivos, embora as circunstâncias nos tenham obrigado e continuem a obrigar a dedicar a grande maioria do nosso tempo livre a lutar em tribunal!

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  3. Ao menos devolvam a casa á Familia Machado de Sousa Vinagre(descendentes de Maria da Graça Machado), que de certeza devolveriam a dignidade que sempre teve antes do senhor Salazar e seus lacaios a expropriarem

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  4. A Quinta das Biscoiteira foi propriedade de Francisco José Vitorino e passou para o seu filho Manuel Ventura Vitorino. A quinta veio a ser expropriada pelo Estado Novo.

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