quarta-feira, 29 de setembro de 2010

As Quintas do Estádio Nacional - A Quinta de São José e o campo de golfe


Quinta de S. José, em Linda-a Pastora, 16 de Outubro de 1910


Meu caro Teófilo Braga

(...) Sabe muito bem V., conhecendo a minha orientação mental, que, indiferente às formas de governo, nada em política me é mais profundamente antipático do que o votismo e o parlamentarismo, que eu considero os mais destrutivos agentes da capacidade administrativa em democracias insuficientemente educadas para a liberdade.

(...)

Domingo passado — faz hoje oito dias — encontrando-me eu e a minha mulher nesta quinta de uma das minhas filhas (...)”.[1]

A história da construção de um campo de golfe no Jamor, bem como a história daqueles terrenos, anteriormente integrantes da Quinta de S. José, é longa e atribulada e conheceu vários avanços e recuos ao longo dos anos.


Quando o Estádio Nacional foi construído durante o Estado Novo, os terrenos inicialmente destinavam-se a um hipódromo. Aliás, o curso do Rio Jamor foi desviado para esse efeito, para permitir a criação de um espaço mais amplo nessa margem do rio. O hipódromo nunca foi construído e os terrenos não tiveram nenhuma utilização especial até 1985, ano em que foram arranjados para realizar o Campeonato do Mundo de Corta-Mato, que foi vencido por Carlos Lopes.


Nos anos seguintes, continuaram mais ou menos ao abandono, tendo inclusivamente sido utilizados para realizar o prólogo do Rally de Portugal.


Este estado de relativo abandono, que se prolongou até 2009, permitiu a recuperação ambiental, embora incipiente, de terrenos que tinham sido fortemente intervencionados em anos anteriores em virtude das grandes movimentações de terras que aí tinham sido realizadas.


Quanto ao golfe, já existia um campo de treino de golfe nesse espaço há cerca de 20 anos, mas o que está agora em causa é passar de um campo de treino, que faz todo o sentido no contexto do Complexo Desportivo Nacional do Jamor, para um campo de golfe dito “público” de 18 buracos vedado em toda a sua extensão. Esta ideia é muitíssimo questionável tendo em conta o espaço necessário para esse efeito, sem qualquer paralelo com o espaço afecto às outras modalidades, bem como as implicações ambientais.


Durante anos, o projecto do campo de golfe não avançou, por muitos e variados motivos, entre os quais se encontravam problemas ligados ao financiamento da obra e questões ligadas ao ambiente (uma grande parte dos terrenos integra a REN e é domínio público hídrico, para além de ser leito de cheias).


Foi o nosso anterior governo que veio resolver o impasse, através duma parceria entre o IDP, tutelado pelo Secretário de Estado da Juventude e dos Desportos, Laurentino Dias, e, em última análise, pelo Ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, e o Instituto de Turismo de Portugal, na época tutelado pelo antigo Ministro da Economia, Manuel Pinho.


Resolvido o problema do dinheiro, a opção política foi ignorar os problemas ambientais (e legais), bem como a necessidade de licenciamento. As obras da 1ª fase começaram na Primavera de 2009, sem aviso prévio, sem licenciamento algum e sem um único cartaz a dizer o que se iria construir.


Naturalmente, a população não aceitou de bom grado esta situação e recorreu aos tribunais a pedir o embargo da obra. O tribunal deferiu parte do pedido a título provisório, a saber, proibição de destruição de mais coberto vegetal e do corte de mais árvores. Esta proibição tem sido desrespeitada pelos promotores de forma clara e ostensiva. A decisão definitiva sobre esta providência cautelar ainda não foi emitida.




[1] Carta de Ramalho Ortigão a Teófilo Braga.

Sem comentários:

Enviar um comentário