quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A Faculdade de Motricidade Humana e o Ensino da Educação Física em Portugal


A Faculdade de Motricidade Humana está localizada na Rua da Costa, na periferia da zona urbana da Cruz Quebrada, perto da margem esquerda da Ribeira do Jamor. A zona envolvente a nascente/norte é caracterizada por uma zona de espaço verde, pinhal e limite da mata do Estádio Nacional. A zona a sul é limitada pelas ruínas da Quinta da Graça


Actualmente é constituída por diversos edifícios, díspares na sua génese e no tempo. É questionável a construção de alguns edifícios que dela hoje fazem parte como pavilhões anexos, centro de estágios, alojamentos de estudantes. Estas construções da década de 60 demonstram uma total rotura com o projecto inicial, com fraca qualidade construtiva e deficiente diálogo arquitectónico.


Segundo uns, o edifício principal da Faculdade de Motricidade Humana teria sido projectado por Jacobetty Rosa, tal como o Estádio e a Praça da Maratona, mas outros atribuem-no a Pardal Monteiro.


Não possuindo elementos conclusivos para nos pronunciarmos num sentido ou noutro, sempre se dirá que a referência a Pardal Monteiro parece mais consentânea com a restante obra deste arquitecto, mormente o conjunto arquitectónico do Instituto Superior Técnico, com o qual se podem estabelecer paralelismos evidentes.


O acesso ao edifício principal é feito por imponentes portões em alvenaria encimados por elementos em ferro forjado, que dão acesso a um espaço ajardinado, onde sobressai um belíssimo lago de traça Art Déco no seu espaço central.


Revelando uma expressiva articulação de volumes, os alçados definem-se com avanços e recuos que criam zonas de sombra.


Apresenta uma arquitectura moderna organicista, que se conjuga com elementos de tradição vernacular.


A fachada nobre do edifício principal desenvolve-se em três corpos, sendo o do meio mais alto do que os outros, marcando assim a sua dignidade (a entrada) no conjunto.


O acesso às três imponentes, altíssimas, portas de entrada faz-se por uma escadaria em pedra ladeada de canteiros. A entrada situa-se num espaço acolhedor criado pela configuração do edifício.


Um volume cilíndrico marca a fachada do lado esquerdo, com a sua decoração de elementos orgânicos na alvenaria sob a forma de pequenas aberturas.


Toda a obra é de carácter monumental, formal, com um grande rigor de traçado, a sublinhar a imponência e seriedade, sublinhada pelo elevado pé-direito dos seus espaços interiores, bem como pelos materiais nobres empregados.


A história da FMH confunde-se com a história do ensino da educação física em Portugal. Imediatamente antes da criação do Instituto Nacional de Educação Física (INEF), a formação de professores de educação física era assegurada por cursos ministrados na Sociedade de Geografia de Lisboa e na Escola de Educação Física do Exército. Estas escolas inspiravam-se nos ensinamentos de várias escolas estrangeiras, designadamente Estocolmo, Gand, Bruxelas e Joinville-le-Pont.


A instituição militar tinha a ambição de se assumir como principal referência no campo da educação física em Portugal, uma ambição que tem de ser lida à luz do importante papel que o Estado Novo reconhecia a esta matéria. Essa importância ressalta, por exemplo, da criação da Federação Nacional para a Alegria no Trabalho (hoje, INATEL) e da Mocidade Portuguesa, ambas instituições em que o exercício físico veio a assumir um papel preponderante.


Em 1940, o Ministro da Educação Nacional, Carneiro Pacheco, criou o INEF, hoje designado Faculdade de Motricidade Humana (FMH). Entregou a sua direcção a um civil e não a um militar e colocou-o sob a alçada directa do Ministério da Educação e não do Ministério da Guerra, contrariando assim as pretensões do Conselho Superior do Exército, que tinha estado na génese da sua formação. A ideia foi aceite e aplicada, mas não nos moldes pretendidos pelos militares.


A criação do INEF consolidava o reconhecimento da importância da formação de professores de Educação Física e de um modelo pedagógico que procurou simultaneamente integrar os pressupostos do saber médico e da organização militar. O sistema de ginástica de Ling servia bem as intenções formativas pretendidas pelo regime e foi o escolhido como modelo de organização do curso a ministrar (...)”[1], servindo de plataforma para facilitar a colaboração entre este Instituto e a Mocidade Portuguesa.


Como não podia deixar de ser, a criação do Instituto Nacional de Educação Física devia integrar-se na estratégia ideológica do Estado Novo, nomeadamente contribuindo para a resolução dos problemas mais importantes da educação nacional. Na proposta de lei apresentada pelo Ministro da Educação Nacional, em 1939, a criação do mencionado Instituto justificava-se, exactamente, porque se pretendia:


«Instituir um centro de estudos científicos e de prática racional da educação física, como instrumento de unidade didáctica e de orientação geral, e com finalidade profissional de formar os respectivos agentes de ensino, oficial ou particular, tendo-se em vista o revigoramento da raça no plano da educação integral e os interesses da defesa da Pátria.»(CRESPO, 1991, p. 17)


As disposições e os fundamentos dos documentos que estão na base da criação da Mocidade Portuguesa e do Instituto Nacional de Educação Física apontam claramente uma ruptura com a corrente da «ginástica respiratória (...)»”[2], que advogada exercícios pouco complicados e não tinha qualquer vertente competitiva. Esta “ginástica respiratória” era objecto de escárnio por parte dos militares, adeptos do “método sueco”,que a acusavam de ser mais terapia do que exercício.


Este “método sueco” preconizado pelos militares era uma “ginástica formativa que através de exercícios variados e atraentes dotasse os jovens de capacidades físicas e morais necessárias à dignificação da pessoa e à afirmação da pátria. A adopção do sistema ginástico de Henrich Ling possibilitava conciliar a fundamentação vinda da medicina e a acção ordenada requerida pelos militares, porquanto se compunha de movimentos racionais, analíticos e localizados baseados nos conhecimentos da anatomia, fisiologia e mecânica mas que podiam transformar-se numa Educação Física colectiva, disciplinada, intensa e rigorosa. Este método de Ling «evoluído» parecia responder exactamente ao que o Ministro da Educação Nacional pretendia com a criação do INEF, ou seja, formar pessoas para, no âmbito do ensino da Educação Física, servirem uma estratégia de formação integral.[3]


Da “ginástica de Ling” até hoje, muito caminho foi percorrido. Passou-se dum ensino essencialmente baseado na ginástica, em que os jogos e desportos têm um papel subalterno e em que os mais fracos fisicamente não tinham lugar, para a moderna concepção do “desporto para todos” e uma abordagem eminentemente científica das várias componentes ligadas ao desporto, ao ensino, à gestão de espaços desportivos, passando por métodos de treino ou psicologia do desporto.


Desta evolução, já há sinais ainda nos anos 50, mas que só tiveram alguma expressão nos anos 60 e, principalmente nos anos 70.


Durante os anos sessenta e princípios da década seguinte, como refere Brás (1996, p. 50), surge um movimento que desenvolve a acalorada «discussão dos ISMOS da Educação Física» que marca claramente uma ruptura com o modelo de formação mecanicista protagonizado pelos professores mais antigos (Celestino Marques Pereira, Moura e Sá, Hans Lipka, entre outros) e valoriza o psicologismo e o pedagogismo, defendidos, sobretudo, por Nelson Mendes e Vítor da Fonseca, e o desportivismo, especialmente acentuado por Moniz Pereira, Mário Lemos, Paula Brito, Noronha Feio e outros.”[4]


Estas abordagens inovadoras foram travadas pelo clima político do país e só puderam assumir plena expressão depois da revolução de 1975.


Hoje a FMH, herdeira do INEF (1940 a 1975) e do ISEF (1975 a 1989), parte integrante da Universidade Técnica de Lisboa desde 1989, continua a cumprir a sua missão de formar professores de educação física, mas é muito mais do que isso.


Oferece cursos dos 3 ciclos do ensino superior, bem como pós-graduações, tanto em ciências do desporto, como em ergonomia, reabilitação psicomotora, gestão do desporto, dança, psicologia do desporto, treino de alto rendimento... para citar só algumas das suas valências.


Desempenhou e continua a desempenhar um relevante papel na formação e inovação em todas as áreas ligadas à motricidade humana.




[1] António Gomes Ferreira, “O Ensino da Educação Física em Portugal durante o Estado Novo”, Florianópolis, v. 22, n. Especial, pp. 197-224, Jul./Dez. 2004

[2] António Gomes Ferreira, op. cit.

[3] António Gomes Ferreira, op. cit.

[4] António Gomes Ferreira, op. cit.



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