sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O Estádio de Honra


Localizado na encosta poente do Vale do Jamor em perfeita articulação com a mata que o rodeia, o Estádio de Honra ocupa um lugar de destaque na colina pela sua monumentalidade.


Envolvido a sul, poente e norte pelos espaços verdes da mata, desenvolve-se horizontalmente duma forma simples mas majestosa.


Integrado numa vasta área verde, está dotado de perfeitas acessibilidades a todas as aglomerações satélites e a Lisboa. A vegetação confere protecção contra o vento e o sol. A marcante pedra branca da sua constituição torna-o elemento dominante do cenário em que se integra. A sua localização teve como ponto de partida o domínio da paisagem.


Construído em escavação numa depressão natural do terreno, o Estádio só tem lugares sentados. Faz parte Complexo Desportivo Nacional do Jamor, libertando o vale para as diversas estruturas desportivas. Imponentes, as suas bancadas ladeiam o rectângulo de jogos e a pista de corridas. A implantação dos degraus com altura e largura constantes variam o gradiente em altura. Destaque para a Tribuna de Honra virada a nascente, em colunata marcadamente de pedra branca, como toda a restante construção.


Nos últimos anos, o Estádio sofreu várias intervenções. Foram colocadas cadeiras plásticas brancas sobre as bancadas que o desfiguram. Na Tribuna de Honra, foram colocados toldos, bancadas móveis, cadeiras e bancadas de imprensa que estão totalmente desintegradas da realidade da peça arquitectónica.


Por outro lado, a construção da Nave Coberta de Atletismo (em fase de acabamento) e a projectada construção do Pavilhão Multi-Usos no enfiamento da Praça da Maratona interferem com o esquema de circulação da água em toda esta zona.


Situa-se por baixo do estádio um importante lençol freático que, se levantou dificuldades durante a construção do Estádio de Honra, não levantou dificuldades menores aquando da construção da Nave Coberta de Atletismo. É por isso de temer que a obra agora terminada e a que se projecta possam ter consequências desastrosas para a estrutura do Estádio de Honra, ao impedirem o normal escoamento das águas das duas colinas entre as quais está situado.


A decisão de construir o Estádio de Honra, durante muitos anos conhecido por Estádio de Atletismo, foi tomada nos anos 40, na senda do que se fazia por esta Europa fora. Seria um lugar de desporto, sim, mas acima de tudo um local para inflamar multidões.


Engenheiros e arquitectos portugueses deslocaram-se à Alemanha, à Itália, à Grécia, para estudarem os projectos dos grandes estádios em construção.


Realizou-se um concurso, em que participaram muitos e conhecidos engenheiros e arquitectos da época, e que foi ganho por um projecto que previa a implantação do estádio na zona do vale, como aliás acontecia em todos os outros projectos apresentados a concurso.


Não se sabe ao certo como se passou deste processo de concurso para a tarefa de desenhar o projecto do estádio e da sua envolvente, confiada a Caldeira Cabral e Konrad Wiesner, ambos residentes na Alemanha nessa época.


O certo é que a decisão de trazer o estádio para a encosta se deve a estes dois arquitectos paisagistas, bem como a ideia de o implantar numa depressão natural do terreno, entre duas colinas. É também deles a configuração do estádio em forma de ferradura.


No desenho original, esta ferradura era estreita e alongada e a sua abertura relativamente pequena. No desenho que acabou por vingar, não se sabe ao certo como, a ferradura é muito mais generosa, ampla, uma grande concha com uma larga abertura sobre a paisagem do Vale do Jamor. Perderam-se muitos lugares de lotação, mas ganhou-se uma perspectiva incomparável.


O desenho original de Caldeira Cabral e Konrad Wiesner previa que as últimas fileiras de bancadas sobressaíssem das colinas entre as quais o Estádio estava implantado, mas Duarte Pacheco decidiu doutro modo e as últimas bancadas ficaram à face das colinas.


Esta decisão implicava perder muitos lugares de lotação. Como sempre pragmático, Duarte Pacheco decidiu então rebaixar o piso do estádio, para permitir a construção das filas de bancadas que se perderiam. Esta decisão acabou por levantar grandes problemas técnicos porque veio interferir com um grande lençol freático que se situa precisamente por baixo do estádio.


Para ultrapassar este problema, foi construída uma complicada estrutura de drenagem ao longo das bancadas mas, ainda hoje, em tempos de grande invernia, a água desse lençol aflora nalguns pontos.


O projecto de engenharia do estádio é de 1939 e é da autoria dos engenheiros civis Júlio Marques e António Brito.


O projecto final de arquitectura, já depois do afastamento de Caldeira Cabral e de Konrad Wiesner, é de Jacobetty Rosa, de Julho e Agosto de 1940. O projecto da Tribuna de Honra é de Jacobetty Rosa e do engenheiro civil Sena Lino.[1]


A sua inauguração, em 1944, foi uma das maiores manifestações populares do Estado Novo, evidenciada nos documentários filmados da época. Foi um desfile grandioso de atletas, um nunca mais acabar de aplausos, rematado por um jogo de futebol, já muito apreciado na época.


Nessa altura, as árvores ainda não tinham crescido e as colinas do Jamor eram calvas. Multidões de populares, muitos vindos de longe, espalharam-se pelas encostas nuas, com as suas cestas de piquenique.


Nos ainda muitos anos de ditadura que se seguiram, o Estádio de Honra e a sua monumental Praça da Maratona foram palco das celebrações do 10 de Junho, cumprindo assim uma das funções para que tinha sido construído.


Hoje, em democracia, o Estádio de Honra, está rodeado por árvores altas, com dezenas de anos. Continua a ser palco de inúmeras manifestações desportivas e populares. É aí que se realiza a final da Taça de Portugal de Futebol, que todos os anos traz ao Jamor dezenas de milhares de adeptos. Por fim, é a casa da selecção nacional de futebol.


Inaugurado a 10 de Junho de 1944, a sua simetria e rigidez espelham a formalidade da arquitectura do Estado Novo, com referências aos estádios olímpicos de Atenas, Roma e Berlim.


A sua evolução conceptual desde Caldeira Cabral foi marcada pelos princípios de utilização polivalente. Inspirado no ideal grego para servir o desporto e as manifestações estaduais, é imponente na sua forma clássica em pedra lavrada.


O equilíbrio de volumes entre as bancadas e a Tribuna de Honra e o perfeito ajustamento à paisagem fazem dele um símbolo da arquitectura do desporto.


É centralizador do parque desportivo e a sua abertura a nascente permite visualizar a entrada e o desfile das formações dos atletas, bem como contemplar todo o Vale do Jamor.


De desenho natural e orgânico, tira partido do relevo expressivo do terreno e demonstra a ligação mestra de diálogo com a paisagem. Verdadeiro palácio dos desportos, faz parte de um parque cuja ideologia foi sempre proporcionar aos praticantes desportivos o contacto com a vida na natureza.


Sem pré-existências ou qualquer eixo fundamental, o Arq. Jacobetty Rosa dotou esta estrutura, de belas bancadas de pedra branca, de uma Tribuna de Honra. Com planta rectangular suportada por pilares, prolonga-se lateralmente por duas colunatas de inspiração clássica. Este coroamento central do conjunto arquitectónico das bancadas é um pórtico (de 36 m de extensão e 9 m de altura), antecedido por um hall, onde se dispõem as instalações para o Chefe de Estado e Governo ou representações diplomáticas. Os átrios que o ladeiam servem para estabelecer a transição harmónica entre este e a colunata. Toda a estrutura tinha igualmente como finalidade a protecção do vento e do sol.


[1] Pereira, Jorge Paulino "O Estádio Nacional" in Sequeira, Gustavo de Matos (dir.)- Olisipo : boletim do Grupo "Amigos de Lisboa". 2.ª série, n.º 10, Lisboa : G.A.L., 1999, pp. 101-114.
BN J. 5230 B.


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