Pegando no mote de quem nos acusou de sermos “Velhos do Restelo” por não sermos a favor do Projecto Porto Cruz, essa acusação é para nós um elogio.
De facto, embora o “Velho do Restelo” seja hoje em dia sinónimo de conservadorismo, a verdade é que ele levantou a voz contra os que sacrificavam o povo à “glória de mandar” e à “vã cobiça”, uma “sagaz consumidora conhecida de fazenda, de reinos e de impérios” e que invocavam a “Fama e Glória soberana, Nomes com quem o povo néscio se engana”.
Relembramos aqui as belíssimas estrofes de Camões, duma actualidade tremenda nos tempos que correm.
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Mas um velho, de aspecto venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
C'um saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:
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- "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C'uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!
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- "Dura inquietação d'alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios:
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo dina de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!
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- "A que novos desastres determinas
De levar estes reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos, e de minas
D'ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos, que palmas, que vitórias?
Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, Canto IV, 94-97
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