domingo, 9 de janeiro de 2011

Velhos do Restelo sim, com muita honra!

Pegando no mote de quem nos acusou de sermos “Velhos do Restelo” por não sermos a favor do Projecto Porto Cruz, essa acusação é para nós um elogio.

De facto, embora o “Velho do Restelo” seja hoje em dia sinónimo de conservadorismo, a verdade é que ele levantou a voz contra os que sacrificavam o povo à “glória de mandar” e à “vã cobiça”, uma “sagaz consumidora conhecida de fazenda, de reinos e de impérios” e que invocavam a “Fama e Glória soberana, Nomes com quem o povo néscio se engana”.

Relembramos aqui as belíssimas estrofes de Camões, duma actualidade tremenda nos tempos que correm.

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Mas um velho, de aspecto venerando,

Que ficava nas praias, entre a gente,

Postos em nós os olhos, meneando

Três vezes a cabeça, descontente,

A voz pesada um pouco alevantando,

Que nós no mar ouvimos claramente,

C'um saber só de experiências feito,

Tais palavras tirou do experto peito:

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- "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça

Desta vaidade, a quem chamamos Fama!

Ó fraudulento gosto, que se atiça

C'uma aura popular, que honra se chama!

Que castigo tamanho e que justiça

Fazes no peito vão que muito te ama!

Que mortes, que perigos, que tormentas,

Que crueldades neles experimentas!

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- "Dura inquietação d'alma e da vida,

Fonte de desamparos e adultérios,

Sagaz consumidora conhecida

De fazendas, de reinos e de impérios:

Chamam-te ilustre, chamam-te subida,

Sendo dina de infames vitupérios;

Chamam-te Fama e Glória soberana,

Nomes com quem se o povo néscio engana!

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- "A que novos desastres determinas

De levar estes reinos e esta gente?

Que perigos, que mortes lhe destinas

Debaixo dalgum nome preminente?

Que promessas de reinos, e de minas

D'ouro, que lhe farás tão facilmente?

Que famas lhe prometerás? que histórias?

Que triunfos, que palmas, que vitórias?

Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, Canto IV, 94-97

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