quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Cidade do Futebol ou Cidade da Loucura Colectiva?




A CIDADE DO FUTEBOL


A Liga dos Amigos do Jamor ficou chocada com o anúncio da construção da "Cidade do Futebol" projectada para terrenos do Complexo Desportivo do Jamor (Estádio Nacional), feito no passado dia 5 de Agosto pelo Presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) com a bênção da Câmara Municipal de Oeiras e do Ministro Relvas. Não ficou surpreendida porque há muito que se habituou aos desmandos dos ministros que sucessivamente têm tutelado o desporto em Portugal, bem como à promiscuidade existente entre interesses vários escondidos sob a capa do "desporto" e a política.

Nos últimos tempos, os terrenos do Estádio Nacional têm sido alvo de variadíssimos ataques por parte de interesses privados e menos claros, com a ajuda sempre prestimosa da Câmara Municipal de Oeiras, do IDP e da administração central. Neste contexto, devemos lembrar os projectos imobiliários megalómanos conhecidos por Porto Cruz e Alto da Boa Viagem, bem como o campo de golfe do Jamor, construído em terrenos públicos com dinheiro dos nossos impostos e entregue de mão beijada à Federação Portuguesa de Golfe (FPG) para que esta o "explore" e alegadamente "promova o golfe". A estes projectos, vem juntar-se agora um quarto, a Cidade do Futebol!

Nestes quatro casos, o princípio é sempre o mesmo: terrenos públicos, de todos nós, postos ao serviço de interesses privados de alguns privilegiados próximos das classes políticas dirigentes, com avultados prejuízos para o património do Estado, para as populações e para o ambiente. No caso dos projectos Porto Cruz e Alto da Boa Viagem, tudo se faz a coberto de argumentos de "progresso, desenvolvimento e criação de emprego". No caso do campo de golfe oferecido por todos nós à FPG, como no caso da projectada Cidade do Futebol, cujos terrenos tudo indica que iremos oferecer à FPF, tudo se faz a coberto de argumentos de "promoção do desporto".

Ora, o que está por trás de tudo isto é sempre o mesmo: apropriação por particulares de terrenos que são, sublinhe-se, terrenos públicos, sob o alto patrocínio dos autarcas e governantes que têm por missão proteger esses mesmos terrenos e em prejuízo das populações!

A Cidade do Futebol é, na realidade, apenas mais uma peça no desígnio último de lotear e retalhar os terrenos públicos integrantes do Estádio Nacional. Já há um campo de golfe, vão ceder-se vários hectares da mata para construir acessos rodoviários aos empreendimentos Porto Cruz e Alto da Boa Viagem, vão ceder-se vários hectares da mata para estacionamentos ao serviço do Alto da Boa Viagem e, agora, vão ceder-se vários hectares à FPF para que esta tenha uma "casa das selecções" há muito sonhada...

Posto isto, é caso para dizer que estão todos de mãos dadas, dos promotores imobiliários aos seus financiadores, dos senhores do golfe aos do futebol, passando pelo executivo camarário de Oeiras, pelos dirigentes do IDP e pelos vários ministros que têm tutelado o desporto, em que o que se encontra actualmente em funções, o Ministro Relvas, não é excepção.  

Na actual conjuntura económica, a Liga dos Amigos do Jamor entende ainda que se faz falta uma "casa das selecções" e se a FPF tem os muitos milhões necessários para a sua construção, o país provavelmente veria  com bons olhos que se fosse promover o futebol para outro lado, por exemplo junto a um dos vários estádios abandonados que financiámos com os nossos impostos e que sobraram do Euro 2004, promovendo assim simultaneamente a descentralização e o desenvolvimento regional, criando ainda emprego em zonas deprimidas do país.